Trump estendeu tapete vermelho para Xi — mas líder chinês não conseguiu tudo o que queria
25/09/2026
(Foto: Reprodução) O presidente dos EUA, Donald Trump, segura uma pasta enquanto está ao lado do presidente chinês, Xi Jinping, antes de Xi discursar durante um jantar de Estado na Casa Branca, em Washington
REUTERS/Evelyn Hockstein
As cúpulas dos presidente Xi Jinping, da China, e Donald Trump, dos Estados Unidos, costumam ter um objetivo claro.
A China acredita que os EUA estão tentando conter sua ascensão como superpotência e quer que Washington fique fora do seu caminho, principalmente no que diz respeito a comércio, tecnologia e Taiwan.
Na visita realizada esta semana, porém, apesar de Trump ter lhe estendido o tapete vermelho, o líder chinês não conseguiu tudo o que queria.
A trégua comercial que permitiu a ambos os países suspenderem uma guerra tarifária de retaliações mútuas e evitarem uma escalada ainda maior, foi prorrogada por apenas alguns meses — de novembro a janeiro. Pequim queria que fosse uma extensão de pelo menos um ano.
Isso significa que as principais disputas sobre tarifas, o domínio da China no fornecimento de terras raras e o acesso a chips avançados dos EUA estão sendo adiadas para uma futura rodada de negociações.
Isso sugere que os EUA querem que a China faça mais para cumprir sua parte do acordo antes de oferecer concessões de longo prazo.
A verdade incômoda para Xi é que sua economia doméstica está em apuros. Embora o país venda um número recorde de mercadorias em todo o mundo, os chineses estão segurando o consumo. O desemprego entre jovens permanece alto e os preços dos imóveis despencaram em um país onde 80% das pessoas possuem casa própria.
O comércio está ajudando a impulsionar o crescimento, tornando o acesso aos mercados estrangeiros mais importante do que nunca. Xi precisa proteger essas exportações das tarifas debilitantes que os EUA impuseram no ano passado.
Donald Trump recebe Xi Jinping na Casa Branca
Quanto a Taiwan, Xi deixou claro mais uma vez que Pequim considera inaceitáveis as vendas de armas americanas à ilha.
Os EUA são obrigados por lei a fornecer à ilha autogovernada os meios para se defender.
Em maio, Xi alertou Trump que uma condução inadequada da questão poderia levar os dois países a "colidirem ou até mesmo entrarem em conflito".
Trump então adiou a aprovação de um pacote de armas de US$ 14 bilhões para Taiwan, que ele classificou como uma "ótima moeda de troca" com Pequim.
Xi pode ter aproveitado essa brecha durante as negociações e provavelmente argumentou que restringir o apoio a Taiwan reduz o risco de conflito.
Na quinta-feira (24), ele reiterou sua esperança de que os EUA se mantivessem na "posição correta" de se opor à independência de Taiwan.
No entanto, Trump — que está sofrendo pressão bipartidária para manter o apoio dos EUA a Taiwan — ainda não se manifestou publicamente sobre os comentários do líder chinês.
Os dois líderes discutiram a inteligência artificial, embora não esteja claro se concordaram com alguma medida de segurança.
Todas as atenções estavam voltadas para a possibilidade de os dois líderes tomarem alguma decisão concreta sobre IA, como um acordo para realizar uma cúpula sobre o tema, após um artigo do CEO da Anthropic, Dario Amodei, defendendo uma desaceleração do desenvolvimento da IA para torná-la mais segura. O texto foi publicado depois que um dos principais pesquisadores de segurança da empresa alertou que havia uma "probabilidade superior a 10%" de que a IA pudesse causar a extinção da humanidade.
Mas, além de Xi ter falado sobre a importância de garantir que a IA "esteja sempre sob controle humano", não houve mais detalhes. Trump, por sua vez, descartou recentemente os temores de extinção da humanidade devido à tecnologia, classificando-os como uma "farsa".
E, claro, não podemos nos esquecer dos pandas. O presente de Ping Ping e Fu Shuang para um zoológico de Atlanta foi anunciado pela primeira vez em abril, mas Xi Jinping agora anunciou que eles chegarão em poucos dias, com a retomada da diplomacia chinesa dos pandas.
Os pandas desempenham um papel importante nas medidas diplomáticas chinesas
Getty Images via BBC
Novos anúncios ainda podem ser feitos, enquanto os dois se preparam para um encontro para tomar chá e visitar os Arquivos Nacionais nesta sexta-feira (25).
Mas, por ora, uma das maiores vitórias da cúpula para Pequim pode ter sido sobre sua imagem pública.
A recepção suntuosa, com cumprimentos pessoais no aeroporto e um banquete de Estado com robalo em crosta de gergelim e bok choy (uma espécie de repolho comum na China) refogado, foi muito elogiada por quem acompanhava o evento da China. Isso deve ter contribuído para reforçar a imagem de Xi, perante o público chinês, como um líder em pé de igualdade com Trump.
Memes contrastando os dois líderes se espalharam pelas redes sociais chinesas. Uma imagem popular mostra Trump fazendo careta enquanto jatos sobrevoam o local, enquanto Xi permanece impassível.
Xi Jinping encontrou uma maneira de lidar com um dos líderes mais imprevisíveis do mundo. Mas enquanto Trump fala de uma "amizade verdadeiramente grandiosa", o líder chinês está focado em algo maior: garantir o lugar da China ao lado dos Estados Unidos como uma superpotência.
Os pandas, o espetáculo e as palavras amáveis podem ajudar a suavizar essa relação. Mas, por trás de toda a pompa, a competição entre os dois países mais poderosos do mundo permanece tão acirrada como sempre.